Há uma mudança importante a acontecer na conversa sobre inteligência artificial. Durante algum tempo perguntámos: "O que pode a IA fazer?" Depois passámos a perguntar: "Como podemos utilizá-la?" Agora começa a surgir uma pergunta muito mais difícil: "Como devemos governá-la?"
As leituras desta semana sugerem que esta mudança de pergunta é inevitável. A inteligência artificial já entrou nas organizações, nos serviços públicos, na polícia, na cibersegurança, nos processos de negócio e, naturalmente, na vida das pessoas. A questão já não é decidir se vamos utilizá-la. É decidir como, onde, por quem e com que limites.
O mercado de segurança para IA está a crescer precisamente porque também cresce a perceção de que novas capacidades produzem novas vulnerabilidades. Quanto mais autónomos e poderosos forem os sistemas, maior será a necessidade de compreender aquilo que fazem, aquilo que podem fazer e aquilo que não deveríamos permitir que fizessem.
A ameaça não é apenas tecnológica. É organizacional. É humana. É de governação. A notícia sobre a união de grandes empresas tecnológicas para enfrentar ciberataques potenciados por IA é particularmente reveladora. Quando a ameaça é sistémica, a resposta dificilmente pode continuar a ser isolada. A colaboração deixa de ser uma opção. Passa a ser uma capacidade de segurança. E isto leva-nos diretamente à liderança.
Um dos textos desta semana coloca uma questão particularmente pertinente para as organizações policiais: os profissionais já estão a utilizar IA. O que devem fazer os líderes a seguir? Talvez a resposta não seja simplesmente proibir. Nem simplesmente autorizar. É necessário compreender. Definir regras. Criar competências. Estabelecer responsabilidades. Monitorizar riscos. E, sobretudo, criar espaço para que as pessoas possam falar sobre a forma como estão efetivamente a utilizar a tecnologia. Porque uma tecnologia proibida no papel pode continuar a ser utilizada na prática. A diferença estará em saber se essa utilização acontece de forma invisível e descontrolada ou de forma consciente, responsável e enquadrada.
É aqui que a discussão sobre processos se torna particularmente interessante. Uma das leituras desta semana alerta para aquilo que pode estar a faltar na conversa sobre IA: o processo. É fácil falar de ferramentas. É mais difícil redesenhar processos. Mas é precisamente aí que está grande parte do valor. Colocar IA num processo ineficiente não o transforma automaticamente num processo eficiente. Pode simplesmente tornar a ineficiência mais rápida. E talvez esta seja uma das grandes ilusões da transformação digital: confundir automação com transformação.
O mais recente estudo da McKinsey sobre o estado da IA reforça a importância de ultrapassar a fase da experimentação e encontrar caminhos concretos para gerar valor. A questão passa, portanto, de "temos IA?" para: "Estamos realmente a obter resultados com ela?"
Mas existe uma segunda pergunta que não podemos ignorar: "Que riscos estamos a criar enquanto procuramos esses resultados?" É aqui que a governação assume importância. Modelos de gestão. Normas. Responsabilidades. Medição. Qualidade.
É interessante que, no meio de uma seleção dominada pela IA e pela cibersegurança, surja também a nova ISO 9001. Porque qualidade e inteligência artificial podem parecer assuntos diferentes. Não são. Ambas nos obrigam a pensar em processos. Em melhoria contínua. Em responsabilidades. Em consistência. Em evidência. Em capacidade de aprender com aquilo que corre mal. Talvez seja precisamente essa cultura de qualidade que precisamos de levar para a utilização da IA. Não basta perguntar se um sistema funciona. Precisamos de perguntar:
Funciona para quê?
Com que dados?
Com que riscos?
Com que supervisão?
Com que consequências?
E sobretudo:
Quem responde quando estiver errado?
Esta última pergunta torna-se ainda mais importante à medida que aumentamos o grau de autonomia dos sistemas. A matriz de autonomia e segurança de Lance Zeltser é uma boa provocação nesse sentido: quanto mais autonomia entregamos a uma tecnologia, maior é a necessidade de pensar cuidadosamente nos mecanismos de controlo e segurança.
E há uma dimensão que não pode ser esquecida. As pessoas. A reflexão da Harvard Business School sobre a “caring company” lembra-nos que organizações sustentáveis não são apenas máquinas de eficiência. São comunidades humanas. Num momento em que a IA promete aumentar produtividade, automatizar tarefas e acelerar decisões, talvez tenhamos de perguntar também: o que estamos a fazer com o tempo que a tecnologia nos devolve? Mais trabalho? Mais controlo? Mais velocidade? Ou mais capacidade para pensar, aprender, criar e cuidar? Até a proteção dos mais novos no espaço digital entra nesta equação.
Porque governar tecnologia não é apenas proteger organizações. É proteger pessoas. É proteger direitos. É criar condições para que a inovação seja compatível com confiança. Talvez seja essa a principal reverberação desta semana. A inteligência artificial está a entrar em praticamente todos os sistemas. Mas a verdadeira transformação só acontecerá quando aprendermos a integrar tecnologia, processos, pessoas e governação.
Não precisamos apenas de organizações mais inteligentes. Precisamos de organizações suficientemente maduras para governar a inteligência que estão a criar. Porque a pergunta decisiva para os próximos anos talvez não seja: "Quanto mais poderosa será a IA?" Mas sim: "Quão preparados estaremos nós para decidir o que fazer com esse poder?"
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